domingo, 24 de fevereiro de 2013

As conexões perigosas da igreja





 Quarta, 10 de maio de 2000.

 A Igreja Pentecostal Deus é Amor foi fundada pelo pastor David Miranda em 1962. Hoje, é a segunda maior igreja pentecostal do Brasil. São nove mil templos espalhados pelo País, dos quais três mil só em São Paulo. Um ex-funcionário acusou a igreja de enviar ilegalmente 40 milhões de dólares ao exterior, nos últimos cinco anos. Além do crime de evasão de divisas, a Deus é Amor foi acusada de lavar dinheiro dos traficantes Marcinho VP, Fernandinho Beira-Mar e Escadinha. Segundo o ex-funcionário, cada fiel paga R$ 10 para participar de um culto. O líder da igreja, David Miranda, é um milionário e tem sua fortuna espalhada por paraísos fiscais. Só anda com seguranças e colete à prova de balas. Nos cultos, ele aparece protegido por uma cabine à prova de balas.

  Polícia Federal indicia pastor Líder da igreja Deus é Amor vai responder por evasão de divisas e sonegação fiscal

 Quarta, 17 de maio de 2000.

 Autor: Odair Del Pozzo

 O pastor David Miranda, líder da Igreja Pentecostal Deus é Amor, foi indiciado ontem pela Polícia Federal por evasão de divisas e sonegação fiscal. A PF continua investigando o envolvimento da igreja com a lavagem de dinheiro e também as viagens dos pastores da Deus é Amor para paraísos fiscais, principalmente no Caribe. A polícia também vai pedir a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico do pastor e da igreja. Foi a primeira vez em que David Miranda prestou depoimento. O pastor chegou às 15h15 à sede da Polícia Federal, no Centro de São Paulo, num Tempra preto. Seu advogado já estava a sua espera e oito seguranças que seguiam o pastor isolaram os jornalistas: "Não tenho nada a declarar. Leiam Mateus, capítulo 5, versículos 11 e 12", limitou-se a dizer David Miranda. Ele se referia ao trecho do Sermão da Montanha que diz respeito a perseguições sofridas por profetas - "Bem-aventurados sois, quando vos insultarem e vos perseguirem (...), pois assim perseguiram os profetas que existiram antes de vós". O pastor foi interrogado pelo procurador-geral da República em São Paulo, Pietro Barbosa Neto, e pelo delegado da federal em Cascavel (PR), Protógenes Queirós. Durante o depoimento, O DIA teve acesso a documentos da Deus é Amor que comprovam o envio de dólares para outros países. Em uma lista assinada por toda a cúpula da igreja, a orientação para o responsável de cada país era retirar sua "pasta" no setor de "exterior". Segundo o G., ex-tesoureiro da igreja, primeiro a denunciar o pastor David Miranda, "havia muito cuidado com as pastas, justamente porque dentro delas estavam os dólares". Entre outros documentos entregues à Polícia Federal, G. também incluiu os "Recibos de Transferência de Material". Em um outro documento, a cúpula obrigou todas as sedes do Brasil e do mundo a "arrumar" programas de rádio, sem deixar de mencionar que a hora em rádios comunitárias, geralmente piratas, custa entre R$ 1 e R$ 5. O Ministério Público Federal também investiga a informação de que a igreja teria mais de 100 rádios piratas em todo o Brasil. O documento também autoriza o aluguel de imóveis sem escritura para os cultos.

 

  R$ 30 milhões em nome de Deus 

Sexta, 12 de maio de 2000

 Testemunha diz que, só do Rio, congregação paulista recebe R$ 460 mil, parte deles recolhida dos fiéis

 Autor: Odair Del Pozzo e Sérgio Ramalho

 Um pequeno templo da Igreja Pentecostal Deus é Amor que era encravado no meio da Vila Beira-Mar, em Duque de Caxias, teria servido de esconderijo para drogas e armas pertencentes ao traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. A denúncia - feita antes das revelações do ex-tesoureiro G. sobre o envolvimento do fundador da seita David Miranda em um esquema de lavagem de dinheiro - está sendo investigada pela Superintendência da Polícia Federal, no Rio. Em depoimento à CPI do Narcotráfico de São Paulo, G. confirmou que a igreja arrecada R$ 30 milhões por mês através dos nove mil templos espalhados pelo País. Somente as igrejas do Rio deveriam enviar mensalmente R$ 460 mil à sede da seita em São Paulo. Templo na Vila Beira-Mar receberia dinheiro do tráfico As denúncias sobre a ligação de integrantes da Deus é Amor com Beira-Mar também chegaram aos integrantes da CPI do Narcotráfico, em Brasília. De acordo com a deputada federal Laura Carneiro (PFL-RJ), os dados foram repassados à Polícia Federal. Segundo as informações, representantes da igreja usavam seus carros para transportar dinheiro, drogas e até armas para a Vila Beira-Mar, reduto do traficante no Rio. Parte da movimentação financeira do tráfico local também teria sido enviada através da seita para paraísos fiscais. Ex-tesoureiro da Deus é Amor, G. reforçou em São Paulo a denúncia de que os templos da igreja eram usados na lavagem de dinheiro de traficantes. Promotor do Ministério Público paulista, Carlos Cardoso ouviu G. na última quarta-feira. Na ocasião, o ex-tesoureiro afirmou que os pastores levavam mensalmente de 500 mil a 1 milhão de dólares para serem depositados em contas do fundador da igreja, David Miranda, em paraísos fiscais. "Cada pastor transportava até 20 mil dólares em cada viagem, caracterizando crime de evasão de renda", disse o promotor. Ministério da Justiça quer a PF investigando o caso Em Brasília, o Ministério da Justiça só está aguardando relatório do Ministério Público Federal, em São Paulo, para acionar a Polícia Federal para apurar as denúncias. Em Cascavel, no Paraná, a PF já tem um inquérito aberto contra a Igreja Pentecostal Deus é Amor para apurar crime de evasão fiscal. Para o promotor Carlos Cardoso, o fundador da seita pode vir a ser processado por evasão de divisas, estelionato e até formação de quadrilha. Cardoso justifica: "Além de mandar dinheiro ilegalmente para o exterior, ele ficava com a maior parte dos recursos, transportados com a ajuda de seus pastores".

 

  A fé que move o tráfico

Quarta, 10 de maio de 2000

 Denúncia liga Igreja Deus é Amor aos traficantes 'Beira-Mar' e 'Marcinho VP'

 SÃO PAULO - Um ex-funcionário denunciou ontem que a Igreja Pentecostal Deus é Amor, com sede em São Paulo, está envolvida em esquema de lavagem de dinheiro do narcotráfico. Em entrevista à TV Bandeirantes, ele disse que os líderes da igreja têm ligações com os traficantes Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP, e José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha. Segundo o ex-funcionário, que trabalhou 18 anos para a igreja e está sob os cuidados do Serviço de Proteção à Testemunha do Ministério da Justiça, nos últimos cinco anos a Deus é Amor enviou ilegalmente 40 milhões de dólares ao exterior. O lucro vem das doações de fiéis e da lavagem de dinheiro do tráfico. Ele disse ainda que os responsáveis pela igreja ficam com 40% do dinheiro. Os traficantes recebem o restante em forma de bens e imóveis. Pastores usam agência de viagens para levar dinheiro O dinheiro é levado para o exterior todos os meses por cerca de 40 pastores, através da agência Andy Viagens Turismo Ltda, de propriedade da Igreja Pentecostal Deus é Amor e com sede num dos templos do bairro da Liberdade, em São Paulo. "Só no ano passado, a Andy recebeu R$ 114.712 dos lideres da igreja", denunciou. O deputado estadual Renato Simões convocou a testemunha a prestar esclarecimentos na Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembléia Legislativa de São Paulo que apura a ligações do narcotráfico no estado. O ex-funcionário contou também que cada filial da igreja espalhada pelo País manda em média R$ 100 mil por mês à sede. Em dezembro do ano passado, a filial de Belo Horizonte enviou R$ 200mil; Porto Alegre, R$ 150 mil; e Bahia, R$ 60 mil. Outras 11 sedes de capitais menores teriam enviado R$ 1 milhão, ao todo. "Cada fiel paga R$ 10 para participar de um culto", disse. O fundador e líder da igreja, David Martins Miranda, acusado de acumular uma fortuna milionária em paraísos fiscais, negou qualquer ligação como o tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Através de seu advogado Rubem Dario Leme Cavalhero, David Miranda declarou que prefere manter a sua privacidade. e que os atos da igreja são feitos com base na Constituição, que isenta os templos de pagamento de impostos. O advogado disse ainda que toda a movimentação financeira da igreja é coordenada pelo seu departamento de contabilidade.

  Conselho investiga movimentação de dinheiro 

Sexta, 12 de maio de 2000

 O Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) funciona como uma espécie de termômetro da lavagem de dinheiro no País. Ligado ao Ministério da Fazenda, o órgão investiga a movimentação suspeita de recursos. Segundo especialistas, o Brasil "lava" anualmente cerca de US$ 18 bilhões. A maior parte desse dinheiro seria movimentada pelos traficantes, que usam o sistema financeiro do País para legalizar os lucros do narcotráfico. A lavagem dos "narcodólares" - como é classificado o dinheiro proveniente do tráfico - seria feita de maneira simples. Para isso, o dinheiro é aplicado em operações falsas e, na maioria dos casos, acaba remetido para contas em paraísos fiscais. Ex-tesoureiro da Deus é Amor, G. disse aos deputados da CPI do Narcotráfico paulista que o fundador da seita, David Miranda, usava os pastores para levar o dinheiro das contribuições para o exterior. Com isso, evitaria passar os dólares através do sistema financeiro, deixando de pagar as taxas cobradas pelo mercado. Em bancos de paraísos fiscais, a taxa cobrada para "limpar" uma grande quantia de procedência duvidosa pode chegar a 25% do total movimentado.

  Cofre de igreja tem que ser trancado com dois cadeados

Quarta, 17 de maio de 2000

 Os documentos das normas da Igreja Pentecostal Deus é Amor revelam uma preocupação excessiva da cúpula da congregação com o dinheiro arrecadado nos cultos. Ao ponto de exigir que todas as igrejas tenham cofres trancados com pelo menos dois cadeados, que somente podem ser abertos na presença dos administradores regionais e de alguém ligado à diretoria da Deus é Amor. Os líderes da igreja vão mais longe: fixam que as chaves devem ficar na sede da igreja e que os cofres das sedes das principais capitais só podem ser abertos pela diretoria. A documentação ao qual O DIA teve acesso indica ainda que o dinheiro arrecadado com a venda de CDs e fitas deve ser depositado nas contas bancárias do missionário David Miranda. Quem desobedece às regras pode ser punido com a perda de 25% do salário e ser afastado. Mas, se a negligência for com o cofre da igreja, as punições são ainda mais impiedosas: pode levar o responsável a ter desconto de 50% do salário e suspensão de 90 dias. É o medo de ser roubado.

 Os documentos revelam também que as sedes regionais receberam no ano passado um reforço de caixa. Belo Horizonte, por exemplo, teve a sua cota ampliada para R$ 200 mil, enquanto Curitiba, Vitória e Porto Alegre passaram a receber R$ 150 mil.


 Fonte: Jornal O Dia